sábado, 14 de fevereiro de 2009

Crise financeira, oportunidade ambiental



Desencadeada por movimentos especulativos de bancos norteamericanos, uma crise financeira, advinda da bolha imobiliária dos Eua, começa a se transformar, também, em crise econômica.

O consumo caiu, a produção começa a se retrair, o crédito encolheu, as bolsas oscilam em todo o mundo e a salvação estatal passa a ser uma realidade mundial.

Índices elevados de desemprego, diminuição de pib, balanços empresariais com nervosos prejuízos em escala mundial, colocam na mídia, quase todos os dias, novidades avassaladoras.

Os riscos de recessão são evidentes, a receita neoliberal do Consenso de Washington não consegue mais dar respostas convictas sobre o “deus mercado” e recursos públicos, de impostos dos contribuintes, passam a ser usados na operação pronto-socorro.

No Brasil, enquanto o Banco Central amargou, em 2008, um prejuízo de 47 bilhões, o lucro dos bancos privados chegou a 58 bilhões.

Nosso país, apesar dessas cifras, exercita os juros mais elevados em escala mundial, tendo como única explicação o fato de que, no Brasil, os bancos vivem muito mais de refinanciar a dívida pública, do que de atender a demanda de crédito do segmento privado.

O governo brasileiro já gastou 62 bilhões, das reservas cambiais, nas operações de salvamento, além de 92 bilhões de flexibilização sobre os depósitos compulsórios bancários. Recursos dos contribuintes e depositantes.

O mundo já vinha assistindo, antes dessa crise financeira/econômica, uma situação mais preocupante e inquietante. O aquecimento global, devido às emanações de calor geradas pelas economias mais ricas do mundo, e estimulado por uma escala plena de produção e industrialização, intensivas, visando atender uma outra escala assustadora, a do pleno consumo. Os primeiros resultados preocupantes já se apresentaram, ao aparecerem novas manifestações climáticas e tragédias ambientais, com graves repercussões humanas.

O tratado de Kyoto não recebeu apoio ou interesse dos paises mais industrializados e os Eua, no governo Bush, ainda se deram ao luxo de não priorizar o tema, alegando riscos ao desenvolvimento daquele país.

Nem todos os americanos endossam essa atitude autoritária, irresponsável e egoísta, e o ex-vice-presidente daquela nação, Al Gore, passou a percorrer muitos países, levando a sua “verdade inconveniente” para motivar cidadãos e governos a lutar em defesa do meio ambiente.

Sempre se define a palavra crise como uma contração entre os termos ameaça e oportunidade. A ameaça da atual situação já está bem clara, graças à didática cobertura da mídia.
A oportunidade que surge, diz respeito, exatamente, à questão de escala. Nossa mãe terra, só chegou ao ponto de desastre anunciado, justamente, pelo extrativismo intensivo, seguido de uma industrialização voraz e veloz, tudo para atender um consumo que vai além do necessário e invade o conceito do fútil e do perdulário.

A sociedade mundial, urbana e solitária, isolada e cega, joga muitas fichas na compra de objetos, tentando tapar os buracos da alma com coisas materiais. Aparelhos, de valor agregado tecnológico elevado, são trocados a cada dois meses, em muitos países, quando teriam vida útil de alguns anos. Automóveis entopem as cidades, pela ausência de modelos e políticas públicas mais aderentes às demandas ambientais e humanas, de um transporte público adequado.

A oportunidade que nos é presenteada é, justamente, a constatação que a diminuição de consumo pode ajudar a gerar novo modelo industrial, mais inovador, menos poluente e destruidor das condições básicas de vida e da preservação da vida.

Novos e muito rentáveis investimentos podem ser dirigidos para a exploração de energias alternativas, como a eólica e a solar. Transportes urbanos podem deixar de queimar combustíveis fósseis e utilizar a energia elétrica. As pessoas podem ser estimuladas a usar os telhados de suas residências e empresas, com incentivos pecuniários de ISS e IPTU, para que suas águas sejam aquecidas e as de chuva armazenadas. O lixo pode ser diminuído com o redirecionamento para um consumo mais consciente e menos predador.

As tecnologias de ponta, em vez de abarrotarem as residências das classes média e alta, podem ser priorizadas para serem meio na saúde, na educação, na segurança, na telemetria ambiental, no transporte e na prestação dos serviços públicos.

Não precisamos tanto de tantos aparelhos de imagem nas residências. No entanto, não podemos mais conviver com a ausência de mamógrafos, de tomógrafos, de ressonância magnética, de computadores, de câmeras, de radares etc, nas escolas, nos hospitais, nas delegacias, nas viaturas e ambulâncias, nos postos de polícia militar e nas estradas.

Veículos novos e com ar condicionado, bons celulares e aparelhos de rádio, instalações limpas e seguras, salários dignos e condições salubres, devem estar presentes, principalmente, nos locais onde os serviços públicos de ponta são prestados à população e não somente nos escritórios administrativos e de atividades meio dos governos e de seus burocratas.

E isso que nem abordamos o caótico sistema prisional/penitenciário nacional, onde temos 500.000 cidadãos trancafiados, sem a mínima perspectiva de recuperação e de retorno ao convívio social, pelo abandono a que foram duplamente condenados, à indignidade, aos maus tratos, ao sórdido e ao insano.

Assim, essa crise pode ajudar a que retomemos uma visão mais realista de mundo e que possamos estabelecer novas prioridades de desenvolvimento, entre as quais se destaquem os cuidados com a prevenção e a proteção dos recursos naturais, essenciais à vida e à sua continuidade.

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