quarta-feira, 9 de janeiro de 2013
PARAGUAI E VENEZUELA DIANTE DO MERCOSUL
Coerência é uma difícil prática para os humanos.
Dependendo dos contextos em que estão, dos conceitos usados, dos referenciais ideológicos, o exercício dessa característica pode tornar-se penoso.
Algumas pessoas acusam religiões de fanatismo esquecendo que aquela que seguem também comete atos muito próximos dos que condenam.
Na área econômica, dependendo da época e de fatos mais distantes, é muito frequente a crítica fácil de ações de certos governos, quando muitas vezes se dá a repetição das condições de contorno que geraram os objetos das críticas, mas em épocas mais distantes.
No caso da geração de energia elétrica, em 2001, o governo da época foi muito acusado de irresponsável e de outos qualificativos, por uma oposição que depois se tornou governo.
Atualmente, devido à seca e baixo nível das barragens, e ao desencontro de explicações e versões entre os vários atores envolvidos, as versões de "apagão", "black-out", e todas as formas de insuficiência de fornecimento de energia, diante da enorme demanda de uma população de 190 milhões de habitantes, se aproximam em muito às agudas constatações, quase acusações, endereçadas ao governo de 11 anos atrás.
Outro ponto interessante para se examinar o conceito de coerência diz respeito ao processo de privatização desenvolvido no governo objeto de críticas, e o novo termo encontrado pelo governo atual, no tocante à obras e serviços estatais/governamentais, que estão sendo passados para a gestão da iniciativa privada, por períodos concessionais de mais de 20 anos.
Às vezes a falácia predomina nessas discussões e as diferenças ficam apenas no uso semântico do termo.
Assim como alguns chamam o desvio de funções, dinheiro, favores e cargos públicos, de suas obrigações constitucionais em benefício de uma pequeno grupo de de 40 ladrões, como corrupção, outros o intitulam de malfeito.
Aspectos puramente semânicos, mais uma vez, talvez para não queimar os membros não corruptos de um governo, e tentar ofender outras pessoas que fizeram a mesma coisa em outro.
Mas a coerência, ou seu contrário, se amplificam quando as questões envolvem relações internacionais, pois o número de olhos é muito maior, e as repercussões de contradições, ou acertos, podem ser dramaticamente menores, ou muito maiores.
No caso da situação recente da Líbia, quando o ex-ditador foi cruelmente assassinado, frente a câmeras de tv de todo o mundo, muitos dirigentes de grandes nações tidas como ricas e desenvolvidas se comportaram como moleques oportunistas, criticando o dirigente morto.
Mesmo dirigente que meses antes visitava os mesmos criticos de agora. Mas além da visita era saudado como grande figura pública, uma vez que os interesses no petróleo produzido em seu país, a Líbia, anestesiava os pruridos éticos, humanistas, e de direitos humanos.
O mesmo se deu no Iraque.
O líder iraquiano, enforcado sob a gestão americana daquele país outrora soberano, foi agente bem pago pelos serviços secretos estratégicos americanos, para enfrentar os russos no Afeganistão.
Quase em uma repetição histórica, o líder chamado de "terrorista" pelos mesmos americanos e que seria o mandante da destruição aérea de prédios na cidade de NY, tinha mais de 20 parentes naquele país, todos transportados por ordem pessoal do presidente daquela grande nação do norte, poucos momentos depois do aludido atentado.
Aqui na América do Sul, também habitada por humanos com as mesmas características, a coerência precisa ser checada permanentemente, para que não se perca a linha básica que nos permita comparar comportamentos, declarações e atos de governantes.
Recentemente, o Congresso Nacional do Paraguai cassou o mandato do presidente daquela sofrida nação por entender, dentro da lei e da constituição do país, que o dirigente assim o merecia.
Dirigente que aceitou a cassação e agora anuncia sua candidatura a senador.
Mas vários foram os governos que votaram o afastamento do Paraguai do Mercosul, em função das regras que compõem o bloco econômico, que prevêm sanções a países que se afastem ou prejdiquem a Democracia no continente.
Recentemente, o presidente eleito da Venezuela, lamentavelmente, teve que se submeter a cirurgias de emergência, para combater um câncer devastador.
Sua posse, marcada para o dia 10 de janeiro, amanhã, corre o risco de não poder ser cumprida devido ao estado de recuperação lenta do paciente, ainda mais que isso ocorre em outro país, para onde o presidente enfermo foi levado.
Dizem alguns especialistas constitucionalistas, inclusive da Venezuela, que se o presidente não tomar posse no dia marcado, teriam que ser convocadas novas eleições para 30 dias, após o décimo dia do corrente mes.
Outros dirigentes, e analistas políticos, assessores, e mediadores, afirmam que a posse presidencial poderia esperar indefinidamente a recuperação, ou, na pior das hipóteses, o falecimento do presidente que sofre.
Convém aguardar a solução que será encaminhada soberanamente na Venezuela, assim se espera, mas já se fica no aguardo para constatar se algum casuismo de poder será exercitado, e apoiado pelas cabeças simpáticas à via escolhida, e quais as posteriores reações que serão tomadas, ou não, para se manter a coerência com as medidas acionadas com o Paraguai.
Coerência se mantém por comparação, por referenciais sérios, e principalmente pelo compromisso das pessoas envolvidas, em seguir a verdade.
Verdades incoerentes poderão se taxadas de mentiras, e incoerências mentirosas, dependendo de quem as pratica, em em que meio ou época, poderão ser impostas como verdades.
Ai está a história para comprovar.
Basta lê-la com a devida isenção e veremos como o uso de palavras, conceitos e processos, já foram suficientemente distorcidos, em função de certos contextos, dependendo de quem os dominava.
Por isso, a boa educação para a democracia, regime que nosso país pouco experimentou ao longo de mais de 500 anos de fundação portuguesa, recomenda que se pratique atos, gestos, dicursos, e conceitos, que sejam robustos o bastante para serem testados daqui a 30, ou 40 anos.
A história o dirá!
segunda-feira, 7 de janeiro de 2013
HERANÇA E GOVERNANÇA
Uma pesada herança cultural, ainda dos impérios portugueses, e do comportamento de uma relação de favores e privilégios, tem impedido a transformação de nosso país em uma nação de investidores independentes e arrojados.
A história registra a pesada burocracia, endeusada pelo poder de plantão e reforçada pela atitude dependente dos que deveriam ser investidores privados.
Quase toda a história de nossa economia é marcada pela fortíssima presença governamental na implantação e operação da infraestrutura nacional, e da benevolência estatal com quem a explora.
São bem atuais os exemplos de empresas concessionárias de serviços públicos, que cobraram pelos serviços, mas não investiram o que deveriam, e ainda alteraram projetos e investimentos, que foram determinantes de suas escolhas em licitações públicas, para evitar investir e contando com a proteção da embaralhada burocracia estatal, da falta de controle e da desonestidade de dirigentes governamentais.
Nas áreas de estradas, telefonia, comunicação de dados, transporte aéreo e terrestre, todos os dias são oferecidos panoramas na mídia nacional do descalabro dessa situação.
Às vésperas de eventos internacionais como a Copa das Federações, Copa do Mundo e Olimpíadas, o Brasil apresenta um quadro de despreparo, improvisação e imediatismo.
Aeroportos sem as condições mínimas de atender públicos maiores, estradas de baixa capacidade e sem estrutura para comportar um tráfego maior, e uma baixíssima taxa de investimento, por parte dos capitais privados. Serviços de telefonia móvel e fixa, e comunicação de dados em ridicula velocidades abaixo de 20% do padrão nominal vendido.
Esse aspecto, aliás, surpreende o governo federal, que apesar das reduções em impostos e toda uma série de incentivos à empresa privada, não tem verificado a necessária contrapartida de crescimento do PIB nacional.
Outro aspecto negativo herdado pelo atual governo foi o significativo gasto estatal com cartões de crédito, que deveriam suportar somente gastos de emergência, e que somam, nos últimos 10 anos, a incrível soma de 250 milhões de dólares!
A abundância desbragada de crédito, também nos últimos dez anos, colocou o Brasil num patamar de consumo desenfreado, levando os automóveis a ser um dos itens mais vendidos.
Automóveis que tiveram redução de preços por favores governamentais, mas que em nada tiveram agregadas novas tecnologias, ou motores mais econômicos. Nem mesmo redução de preços pelos fabricantes. Só o governo, e os contribuintes é que abriram mão dem impostos.
Assim, o Brasil gasta muito mais combustível com a frota aumentada, polui mais as suas cidades, que ficam também mais congestionadas e problemáticas.
Combustível que vem sendo subsidiado pela estatal do petróleo, que já acumula perdas significativas.
Perdas essas que, em última instância, acabam sendo pagas pelo contribuinte brasileiro uma vez que os aumentos e reforços de capital, da dita empresa governamental, acabam recaindo sobre os consumidores/pagadores de impostos via Tesouro Nacional.
E o que o país ganhou com isso?
Mais gastos com acidentes, com a falta de acesso, com a perda de tempo produtivo, e com muito mais estresse humano, fatores todos que se refletem no aumento de procura por serviços governamentais de saúde e por gastos muito maiores nessa área, quando o Brasil deveria estar exercitando políticas de prevenção e não somente de atendimentos emergenciais.
Além é claro da imutabilidade do panorama geral de dependência das iniciativas governamentais/estatais.
A Presidente Dilma já exonerou muitos ministros, também herança trágica do governo anterior. Agora é obrigada a suportar investigações de envolvimento de funcionários da Presidência da República, herdados do governo anterior, e envolvidos em assaltos sofisticados aos cofres públicos, e a favores fabricados em pareceres falsos para conseguir mais facilidades para os vorazes piratas que gostam de ganhar muito dinheiro por baixo do pano.
O governo federal precisa rapidamente se livrar dessas heranças pesadas, mudando sua forma de atuar e se relacionar com a área empresarial privada e dos estamentos politico partidários, e limpando de vez os quadros de funcionários, que deveriam servir somente os interesses maiores do Brasil.
Ou faz isso, ou passará o resto de seu mandato tendo que dar respostas sobre as heranças recebidas, e talvez não podendo exercer a reeleição em 2014, que por suas taxas de aceitação em pesquisas de opinião, não seria difícil de alcançar.
Parece que o sucesso da gestão e da aceitação da forma de atuar da atual Presidente assustou muitos membros partidários, e seguidores do presidente anterior, a ponto de estes ameaçarem a Presidente de deixá-la sem os apoios do que seria a “base aliada” no Congresso Nacional.
E assim, nesse jogo de chantagens, heranças trágicas, e jogos de interesse menores, mesmo que exercitados nos maiores cenários nacionais, vai correndo o primeiro mandato da primeira mulher que chegou à Presidência do Brasil.
Como toda a mulher, em nação machista e atrasada, sofre os boicotes e pressões dos representantes de homens atrasados e bregas, superados, que ainda acham que o país adora conversas de botequim, bravatas e ofensas, dirigentes com amantes, cachaça, culto ao corpo, e gastos enormes com dinheiro dos outros.
Mas desses homens o Brasil já não sente mais falta ou saudades!
sábado, 5 de janeiro de 2013
CORRUPÇÃO, MENSALÃO, STF E "TEATRALIZAÇÃO"
O Brasil conviveu, ao longo de
2012, com o julgamento do processo do chamado “Mensalão”, termo que se
popularizou na mídia nacional, depois que foi assim alcunhado por ex-deputado
do PTB, denunciante de um esquema que envolvia uso de dinheiro e cargos
públicos para financiar a compra de votos, e apoios, de legisladores eleitos
pelo povo, em eleições diretas, com o fim de garantir maioria nos
encaminhamentos de projetos do Poder Executivo Federal, no período de 2003 a
2005.
O STF-Supremo Tribunal Federal,
tem oferecido, já há vários anos, as transmissões de suas sessões de forma
aberta, por canal de televisão, para todo o território nacional. Uma ação
altamente didática, ainda mais se levarmos em conta se tratar da mais alta
corte do país. Essa prática de abertura de imagens e sons, ao vivo, sempre se
transformou em aulas inéditas para a população brasileira, até então distante
do mundo legal e jurídico, por várias razões.
Depois de uma ditadura de 21
anos, entre 1964 e 1985, a população brasileira ficou diminuída em suas atitudes
e a busca de informações verdadeiras, ainda mais as oficiais, ficou revestida
do mito do poder de acesso, do poder dos relacionamentos privilegiados, e do
poder da linguagem empregada, mesmo pelos que deveriam ter o compromisso ideológico
de tratar o acesso ao mundo da justiça de forma transparente, acessível, sem
mistérios.
Após o período ditatorial, o
acesso e a consciência sobre os direitos humanos básicos e essenciais,
surrupiados de forma violenta e autoritária durante o regime militar, deveria
ser uma atitude permanente em todos que se preocupam em recolocar o Brasil nos
trilhos da Democracia plena, abrangente e coerente.
Mas um dos aspectos interessantes
dessa prática do STF, foi justamente a reação que vários profissionais do
direito, alguns doutores das leis, apresentaram sem conseguir disfarçar um
certo estupor.
A carreira e atuação do advogado,
via-de-regra, sempre se caracterizou pela teatralidade, pelo uso hermético de
termos em latim, pelo sincretismo do sentido de petições, procurações, e todo
tipo de documentação a ser apresentada em nome de seus clientes.
Assim o digo, com a maior
tranquilidade, como filho de advogado, com o qual aprendi muitos significados
de termos e expressões normalmente incompreensíveis por cidadãos outros, que
não os rábulas ou causídicos, dependendo da época de atuação e formação
acadêmica. Em tribunais e sustentações orais, então, sempre foi possível notar as transformações por que passavam alguns advogados quando saiam de suas práticas rotineiras e se transfiguravam em usuários de uma oratória que em muito lembrava os filmes e peças de teatro, sobre o senado romano, acentuadas por gestos exagerados, gritos, descabelamentos e outras práticas, que mais pareciam uma catarse. Tudo para tentar impressionar jurados, magistrados e para manter suas famas de grandes oradores.
O Brasil dos tribunos, principalmente na política e cargos governamentais, de voz empoada e gestos largos, de discursos emocionais e piegas, da exploração primária das necessidades humanas, foi vítima de um corte abrupto em 1964, quando a frieza do autoritarismo traumatizou a sociedade brasileira, até então crente nas soluções amistosas e cordiais, propaladas por várias visões equivocadas de sua história e formação.
Nosso país, fundado e dominado por concepções medievais da Igreja Católica, assim como todo o restante da América Latina, foi embalado por premissas falsas sobre as verdades e mentiras. Poucos conflitos foram resolvidos, ao longo da nossa história, por mediação real. Todas as rebeliões foram punidas de forma cruel, violenta, para marcar o comportamento do brasileiro. É só ver o exemplo de Tiradentes, esquartejado, salgado e apresentado ao povo com suas partes entaladas em lanças de madeira. Canudos, é outro exemplo e o episódio do Contestado não foge da regra de “terra arrasada e salgada”.
Enquanto nos formávamos como democracia, mesmo após essa história de mentiras e manipulações conceituais, e mesmo depois dos 15 anos de ditadura de Getúlio Vargas, muitas quarteladas e ameaças de golpe se repetiram, demonstrando a distância entre a docilidade aprendida pelo “cordial” brasileiro, e a atitude pragmática das elites e do poder.
Duas categorias profissionais foram brindadas com decreto imperial, ainda do império herdado de Portugal, e aquinhoadas com a agregação do prefixo “doutor”, na tentativa de dignificar atividades profissionais liberais, num país dominado pelos funcionários públicos, pelos herdeiros das capitanias hereditárias, e por toda a sorte de embargos ao empreendedorismo individual, e pela premiação dos reconhecimentos outorgados pelo poder central.
Médicos e advogados receberam essa designação e as mantêm até hoje, apesar das transformações republicanas, da Semana de Arte de 1922, e de toda a evolução que houve nas sociedades contemporâneas.
Mas ambas as carreiras, por suas características de tratar de questões íntimas, orgânicas, sentimentais, familiares, comportamentais, poderiam ter desenvolvido uma atitude educadora e desmistificadora de seus saberes e conteúdos, pois talvez sejam as que mais se aproximam do núcleo do ser humano, tanto simbólico quanto corpóreo.
Os mitos dos saberes acumulados, devidamente protegidos pelas linguagens técnicas, serviram como reserva de segredos, como proteção, muito mais dos profissionais, do que dos que deles necessitavam. E assim as receitas médicas só eram lidas por pessoal de farmácias que conheciam aqueles hieróglifos, ou por funcionários de cartórios e outros órgãos correlatos, que interpretavam os termos rebuscados dos trâmites legais, gerados na operação do direito.
Nesse cenário, acentuado pelas cores fortes das crises econômicas dos anos 80 do século XX, e sucedidas pelas quase crônicas novas crises desencadeadas pelo poder financeiro do mundo capitalista, o Brasil entra numa nova era, mas eivado, viciado, contaminado, por décadas de autoritarismo, de falta de transparência, acrescidas da mentalidade e cultura vigentes em várias escolas de direito, que privilegiam o conflito e não a mediação. E em algumas escolas de medicina, pela procura dessa atividade como algo “bem pago”, nem sempre pela sintonia, vocação ou identidade com a profissão.
Voltando ao início desta crônica, entramos no século XXI, mesmo que dominados pelo mofo e bolor culturais do anterior, mas com impulsos de reconquista de direitos humanos muito propalados e muito pouco exercitados, embalados pelos impulsos de uma tecnologia aparentemente fornecedora das condições libertadoras e abertas para obtenção de informações.
E um desses direitos se refere ao acesso à informação, ainda mais aquela que diga respeito aos dirigentes públicos, aos legisladores, e aos milhares de cargos nomeados por livre indicação dos “donos” de algum poder.
Boa parte de nossa imprensa, ainda devidamente marcada e traumatizada pelas tesouradas da censura dos 21 anos de regime militar, e influenciada por interesses econômicos transnacionais, não tem sido a fonte mais efusiva de oferecimento da pretendida libertação informacional. Sobre esse aspecto sugiro a leitura do magistral texto do Jornalista Audálio Dantas, contido no livro “As Duas Guerras de Vlado Herzog”, recentemente lançado, como resgate histórico das verdades necessárias, encobertas por mentiras oficiais do poder de plantão, mas que influenciaram muitas gerações, que não aprenderam a usar ou disponibilizar informação real e de boa qualidade.
Retornando ao STF e suas aulas de educação política e democrática à distância, encontramos um sucesso de audiência e participação populares, quando aquele Tribunal, coerente com a sua prática de vários anos, irradia para todo o Brasil as cenas reais, e verdadeiras, de um julgamento momentoso, apesar de sete anos depois de ocorrido, quando acusados de corrupção, de aproveitamento de cargos públicos para formar quadrilhas e delinquir passam pelas “barras dos tribunais”, termo antigo que se referia à separação física entre togados e simples cidadãos, barreira que o mais alto tribunal acaba de derrubar via tecnologia moderna de alta definição, ao vivo, e em “real time”, como gostam os deslumbrados e seguidores dos termos sincretizados em idioma estranho ao nosso.
E assim, nessa toada elevada e respeitadora dos direitos de acesso à verdade e à realidade, a população brasileira recomeçou seu despertar de consciência própria de sua cidadania, de seus efetivos direitos banidos pela barbárie do poder ditatorial, e posteriormente pela ditadura dos que deveriam usar seus cargos públicos para educar para a democracia e para a cidadania ativa efetiva.
E se teatro é um julgamento aberto, onde os magistrados se expõem de todas as formas, que podem ser corrigidos, criticados, e emendados por qualquer cidadão, que tenha ou não formação técnica na área, prefiro esse “teatro do oprimido” como o chamava o genial dramaturgo Augusto Boal, uma vez que em benefício da verdade, da transparência e na luta contra a dominação das massas pela linguagem cifrada, pelo mito dominador do idioma exógeno, pelos “segredos de justiça”, que tem servido para proteger discutíveis direitos ao sigilo de camadas privilegiadas de uma sociedade ainda dominada por castas nem sempre merecedoras dos privilégios presenteados de forma dúbia, mas nem sempre merecidos como participantes de uma cidadania cumpridora da lei.
E se teatro é o que o STF realizou, como ficam as teatrais, essas sim, atuações de vários advogados que sempre usaram entonações vocais, poses estudadas, frases de efeito, com se num permanente “script” hollyoodiano estivessem baseados.
Acusar de teatro a atuação democrática e exemplar do STF é uma atitude que pode demonstrar o receio pela retirada da cortina de mitos que sempre protegeu vários profissionais do direito, e a apropriação pelo povo de uma linguagem cristalina, que vai mudar a relação entre cidadãos e seus representantes, obrigando a uma mudança cultural, comportamental.
E vivas ao STF, que deveria estar sendo celebrado como exemplo de atitude democrática e transparente, não se curvando a ameaças de poderosos, ou de pressões de interesses escusos.
Depois de tanto tempo de obscurantismo,
e de dominação das demandas legítimas e pertinentes da população e da
cidadania, o STF conseguiu implantar no coração da nação brasileira, não mais
uma estaca como foi feito com o corpo de Tiradentes, mas sim um sentimento de esperança e libertação.
Mesmo que tardio!
sexta-feira, 4 de janeiro de 2013
Uma Lista de Pedidos e Sonhos para 2013
E que tenham um ótimo ano novo!
Que vivam seus bons sentimentos, que troquem abraços com seus entes queridos, com seus amigos, e que destinem um pouco da energia afetiva para abraçar desconhecidos, para que possam ajudar os necessitados, e que se disponham a dividir um pouco de alimentos com quem não os têm. Tudo bem, façamos de conta que este é um momento mágico, que todos acreditam em tudo, e que é possível sonhar.
Afinal, sonhar é bom, estimula realizações, motiva esperanças, e ajuda na busca de soluções, mesmo as aparentemente mais difíceis.
Consenti em me deixar levar pelo momento, concordei em embarcar nesse trenó de sonhos, aceitei sonhar sem censuras, sem limitações, e, até, com um pouco de soltura existencial, para que o já conhecido não funcione como uma barreira à imaginação.
Afinal, apesar de já termos vivido, e caminhado, um bom pedaço, quem sabe se ao permitir a imaginação sem limites venhamos e perceber novas situações, outras possibilidades e mais cores novas, nessas rotinas humanas, que tendem a ficar descoloridas, cinzentas, ou mesmo tristes e sem renovação.
Após essa reflexão, pouco trabalhosa, e muito permissiva, não foi difícil criar uma listinha de justas pretensões, de igualitárias aspirações e de muitas elaborações. Note-se que a palavra "aspirações", neste momento, se escrita separadamente, "as pirações"(pequenas ou grandes loucuras), pudesse refletir melhor nosso estado de espírito nesta fase.
Afinal, nossas “pirações” podem nos ajudar a novas criações, com menos impossibilidades, e limitações. Começo a minha lista com a leitura dos jornais dos últimos dias.
O final do mundo foi noticiado, pessoas construíram casas especiais para se proteger, e uma grande gama de previsões não foi realizada. Por isso meu primeiro pedido é para que essa previsão Maia se realizasse, sem a destruição material e humana, mas com a mudança de todas as crenças e costumes existentes.
Queria que não houvesse mais diferenças, e que todos os seres fossem iguais, em direitos e obrigações, em possibilidades e realizações.
Também gostaria de pedir aos Deuses, que o governo mundial dos bancos fosse extinto, mas que o dinheiro fosse guardado em cooperativas, para que todas as pessoas tivessem sua moeda de troca disponível, sem a especulação e desvios, que as grossas paredes bancárias levam alguns banqueiros a executar.
Que bancos não mais prestassem serviços de lavagem de dinheiro ao crime organizado, e que as taxas não fossem mais manipuladas somente em benefício das maldosas grossas paredes dos bancos.
Assim, muitos bilhões já pagos, ao longo de 2012, em multas a governos, por desvios e crimes gerais, pudessem ser aplicados para aplacar fome, curar doenças, educar crianças, e remunerar trabalho digno.
Falando em bancos, me lembrei dos celulares, que não é mais permitido usá-los dentro das agências das grossas paredes bancárias.
Aparelhos destinados a permitir a comunicação pessoal, foram transformados em conjuntos tecnológicos complexos, que mais funcionam para outras finalidades, mas comunicar não comunicam, pois suas interrupções e falhas somam mais tempo do que o destinado a outras operações mais rentáveis, para as empresas operadoras, que cobram sempre mais do que se usou e muito menos do que elas imaginam merecer.
Meu pedido é que os celulares deixem de funcionar somente dentro dos presídios, e voltassem a funcionar, nos valores prometidos pelas operadoras, e bem, sem as limitações posteriormente colocadas.
Tivemos eleições em nosso país.
Mas tivemos, também, julgamentos por muitos e graves crimes de corrupção.
Sempre a mesma coisa: os corruptos dizendo-se inocentes, e que nada sabiam, as provas mostrando o contrário, e os contribuintes sonhando com as punições.
Afinal, tudo feito com o dinheiro roubado dos pagadores de impostos, nós, que nunca fomos chamados a opinar se podiam pagar viagens internacionais para as suas namoradas, ou se podiam implantar cabelos postiços, com o nosso sagrado dinheiro de cada dia.
Assim, outro pedido meu é que seja proscrita a corrupção, mas em todos os níveis.
Dessa forma o dinheiro poderá seguir seu destino necessário, e ser aplicado em educação, em saúde, em segurança, em transporte e acessibilidade.
Ah, e que sejam proibidas festas, inaugurações, exposições, obras, desbundes, breguices e deslumbramentos, com nosso rico dinheirinho dos impostos, ainda mais agora que muitos novos chegam ao poder, e podem querer imitar os que saíram, para a cadeia, ostracismo ou esquecimento.
Cada final de ano, como o que vivemos, sempre traz de volta o comércio, as compras, as grandes listas de presentes, a angústia do consumo.
Mas também voltam as dúvidas com as dívidas, fáceis de fazer e esquecer, difíceis de resolver.
E nessa toada, continuamos esburacando a terra, tirando as últimas reservas que sobram, tirando tudo que é possível tirar, como se possível fosse aos 7 bilhões de gentes do mundo agradar.
Duas coisas mais gostaria de colocar em minha lista.
O "comércio justo" e o "consumo responsável".
Calma, sei que essas palavras, justo e responsável, não são mais muito usadas, e mesmo seu sentido causa alguma estranheza, nesta fase de "salve-se quem puder" e "viva quem tiver".
Afinal, existe algo chamado natureza e meio ambiente, que é de onde veio a nossa vida, e que precisa ter alguma atenção, para que possamos continuar existindo.
Nossa linda vida nas cidades nos fez esquecer de onde viemos.
Apartamentos, ruas asfaltadas, muito poste e poucas árvores, até o mar queremos aterrar.
O mundo se aquece, sem esfria, falta água, sobram tempestades.
Como vivemos a era do prazer, da satisfação individual, e só vemos a desgraça dos outros, por televisão, acreditamos aqui nunca poder chegar.
Eu seu, eu sei, que lista de presentes é para ser colorida, inocente, bonitinha, mas sem essas “pirações”.
Outras podem, mas essas só incomodam, só cortam o barato.
Mas como fazer para a felicidade durar os 12 meses de 2013, para que ela se estenda a todas as pessoas, para que os sonhos possam ser realidade?
Quem sabe agora, que o mundo não terminou em 21 de dezembro de 2012, sobre um pouco de tempo para que as listinhas de sonhos possam ser atendidas?
Afinal, além dos votos, em eleições e de boas festas, o que sobra para que as pessoas possam sonhar realizar em seus sonhos?
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