terça-feira, 24 de novembro de 2009

Sonhos a realizar



Vocações são tendências existenciais, influenciadas e modeladas por convívios familiares, pelo meio em que se vive e por manifestações culturais como teatro, cinema, musica, pintura, esportes, e muitas outras.
Normalmente, as pessoas, em torno de seus dezessete ou dezoito anos, precisam fazer escolhas, que muitas vezes serão definitivas em suas vidas.
Quem pode saber do que gosta e o que quer ser, por mais sessenta ou setenta anos, numa idade tão tenra?
No passado, as gerações que hoje têm mais de quarenta anos, sabem como foi difícil encarar o desafio de fazer um vestibular e ter que arcar com todas as conseqüências dessa escolha.
Muitos se encontram naquilo que estudaram, se realizam e não sentem qualquer inquietação, nas etapas posteriores.
Contudo, é cada vez maior o numero de adultos, que estando na vida profissional, passam a se questionar sobre novos caminhos que sua alma lhes cobra para conhecer ou experimentar.
O ser humano é um grande consumidor de informação e um contumaz tomador de decisões.
Ele vive, permanentemente, pensando: quero, não quero, gosto, não gosto, faço, não faço, vou, não vou, como, não como, compro, não compro, falo, não falo.
Essa característica estrutural, ao mesmo tempo em que lhe dá as condições de escolher caminhos para a sua existência, fica colocando-o, sempre, à prova em suas escolhas e decisões, assumidas e tomadas.
Além desse aspecto, a evolução afetiva e emocional, associada à maturação, que o tempo traz, abre leques de opções, em todos os campos, a partir de certa etapa da vida.
Muitas pessoas, desde que se ouçam e atentem para seus aspectos imateriais, descobrem que não têm mais nada em comum com seus companheiros, que seus trabalhos já não mais lhe oferecem desafios, novidades e grande prazer, e que aquilo que lhes dava paz e tranqüilidade, não passa mais por seus testes de aceitação.
Muitos descobrem que tinham vocações artísticas, desde crianças, outros percebem que aspectos bem mais simples da vida lhes oferecem grandes alegrias, mesmo que singelas e sem grandes investimentos.
Não são poucas as pessoas, que passadas as alegrias e deslumbramentos materiais da compra, e montagem, de casas e apartamentos, bem decorados e sofisticados, sentem grande necessidade de viver de forma mais simples, mais em contato com a natureza e com a condição de ter mais espaço para as emoções genuínas e para os sentimentos mais intensos.
É aquele momento de pensar um pouco em si, não como pai, mãe ou profissional, mas em si como pessoa, como ser que percebe um vazio, uma angústia sem explicação.
Um dos pontos que tem se repetido muito, em razão da busca de realização humana, é a faceta artística.
Aquilo que a busca material abafou por muito tempo, aqueles aspectos que pareciam bobinhos e irresponsáveis, como música, pintura, costura, bordado, canto, e muitos outros, passam a adquirir um peso novo e inusitado.
Quando isso acontece o recomendado é que se busque um caminho para realizar essas aspirações.
À medida que nos tornamos mais maduros, que nos conhecemos melhor, que temos mais coragem de assumir, realmente, aquilo que nos alegra e satisfaz, passa a ser quase imperativo encarar uma nova busca e experimentar as alegrias das novas descobertas.
E é nessa fase que percebemos como temos sonhos, antigos e novos, a libertar e a encarar, para que nossa nova etapa de vida possa ser mais plena e bem mais satisfatória.
Sonhos são como bolhas na alma. Se não os deixamos aparecer e nada fazemos para realizá-los, podem ser como vulcões, que poderão se transformar em “tsunamis” emocionais.
Não realizados podem gerar tristeza e frustração.
No entanto, devidamente assumidos, podem nos levar a estágios nunca vivenciados de prazer e realização, que inundarão nossos ambientes e relacionamentos, propiciando felicidade plena e autêntica.


COMUNICAÇÃO HUMANA: vamos conversar?



O processo de desenvolvimento de nossa sociedade contemporânea trouxe grandes avanços em vários campos.
Se compararmos com os dados de 30 anos atrás, constataremos que todos os indicadores de qualidade de vida, de saúde, de moradia, de saneamento, e o acesso a bons serviços de educação e capacitação tiveram melhorias expressivas.
A distribuição de renda, apesar das grandes injustiças social e tributária, que ainda nos assolam, já permite uma participação maior das classes menos favorecidas nos benefícios da riqueza nacional.
O crédito mais abundante, e o maior número de empregos gerados, permite que a classe média se encorpe economicamente e que as categorias mais baixas possam progredir.
Contudo, o processo de urbanização dos últimos trinta anos, a grande disputa no mercado de trabalho, gerada pelos novos padrões de competição, e associada às modificações geradas nas famílias, trouxe alguns resultados que precisam ser analisados.
Tudo é mais abundante no campo material. Todos têm acesso a todo tipo de tecnologia, de aparatos de difusão de informações, chegando, em algumas casas, a se ter um monitor de tv e um computador para cada pessoa.
Tem-se uma visão excelente de mundo, sabemos on-line, e em real-time, o que ocorre em qualquer parte do globo.
Temos excesso de informação, mas grande carência de comunicação.
Sabemos quem são nossos vizinhos? sabemos como estão nossos filhos? quais os problemas que preocupam nossos melhores amigos?
A corrida por melhor padrão de vida, em termos de trabalho e salário, está nos cobrando um preço elevado.
Estamos nos transformando em zumbis solitários, grandes sucessos em gerar dinheiro, mas completamente incompetentes na arte de conviver, de amar, de entender o outro, de ouvir mais nossas crianças e de construir sonhos conjuntos, mesmo que imaginários, em diálogos soltos e alegres, desvinculados de aspectos meramente econômicos ou financeiros.
Sente-se isso no cotidiano de quase todas as pessoas. Poucos mostram disposição para destinar um pouquinho mais de tempo nos atendimentos que fazem em seus postos de trabalho, no trânsito ou nos intervalos para as refeições.
Muitas vezes notamos que alguém não está bem, que apresenta aspecto triste ou preocupado, mas reagimos com medo de nos aproximarmos e com a possibilidade de ouvir um queixume ou de ficarmos obrigados de ter que escutar um pouco de suas ansiedades ou medos.
Mesmo nas alegrias, ficamos muito controlados, pois o tempo urge e, afinal, que cada um cuide de seus sucessos ou mazelas.
Mas esse comportamento está gerando uma sociedade de grande solidão, de falta de apoios essenciais, enfim, de uma postura mais solidária, em que saiamos um pouco de nossas couraças e defesas, para reconstruir o espaço do convívio e da alteridade.
O processo de comunicação humana precisa de um emissor e de um receptor para que possa ocorrer. E, entre eles, uma linguagem comum, que permita o entendimento e a acolhida do que é dito ou escrito.
O ser humano é um ser “falado”. Ele se forma, desenvolve e compreende o meio em que está inserido, graças a ter sido “modelado” pela fala de seus pais e familiares. Essa “escultura” pela fala, além de lhe permitir a inserção na sociedade, lhe gera a necessidade de comunicação, como um elemento básico de ampliação saudável de suas potencialidades.
Ao minimizarmos o aspecto comunicação agredimos fortemente uma necessidade básica para a plenitude da vida: a empatia, o compartilhamento de sentimentos, o aprendizado que o diálogo e as experiências dos outros nos agregam.
Quanto mais a ciência evolui, quanto mais se avança em conhecimento, maior é a nossa percepção de que o ser humano possui aspectos não materiais, como o campo espiritual e a vontade, a identidade e a individualidade.
Esse conjunto de subjetividades, de diferenças, portanto, nos coloca frente ao potencial de solidão que temos.
E a solidão só pode ser diminuída ou mitigada, se destinarmos um pouco mais de nós para a busca de espaços, e momentos, de mais convivência, de maior compreensão e de solidariedade.
Vamos bater um papo, marcar um café, dar um pouquinho mais de tempo para quem atendemos em nossos balcões da vida?
Vamos conversar?